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Conto urbano

Por Márcia Shimabukuro

Jackson poderia ter sido coisa melhor. Mas foi uma decepção para a mãe, um verme para si mesmo e pura invisibilidade para tantos outros. Nada é tão ruim que não possa piorar.

Aos 17 anos, o menino franzino, de pernas finas, com ossos saltados, encontrou sua válvula de escape. Precisava de aventuras, de adrenalina, de um friozinho na espinha. E furtar lhe proporcionava tudo isso ao mesmo tempo. Era uma maneira de se fazer notar.

Na primeira tentativa, uma mulher tranquila falava ao telefone, numa rua próxima à praça da República. Jackson a observava, e o objeto lhe atraía cada vez mais, os olhos sugados pela possibilidade de tê-lo em suas mãos.

Aproximou-se da vítima sorrateiramente. E, sem que ela pudesse piscar, tomou-lhe o celular. A moça, atordoada, o encarou num gesto de desespero, indignação e surpresa. Ele não sentiu remorso. Ela deve ter família que a ama, dinheiro, tudo. Enquanto a ele, pobre Jackson, o destino não reservou nenhuma mordomia. Estava se vingando da falta de sorte que tivera na vida.

As pernas magras da fome que passara lhe serviram para ser ligeiro. Foi se embrenhando por entre a multidão na cidade, ouvindo os ecos dos gritos de socorro e logo não havia nem sinal dele. Parou para descansar, fatigado, respirando forte.

O que faria com o que roubou? Sua mãe estranharia algo de tanto valor, não poderia levar para casa. Pensou que poderia vendê-lo, mas para quem? Discretamente, escondeu o celular no bolso da calça e foi andando até seu bairro. O ônibus que conduz à periferia é um misto de trabalhadores e gente mal encarada. Jackson continuava preso aos pensamentos. Surgiu uma ideia, como não pensou antes? Mora na favela, os traficantes certamente pagariam pelo aparelho com tecnologia de última geração.

Jackson desceu do ônibus e caminhou até um barraco de alvenaria exposta, protegido por dois jovens desconfiados. Pediu para entrar e foi escoltado por um deles.

- Quero vender isso –disse, mostrando o objeto–, quanto me paga?

- R$ 50 –respondeu um homem de barba mal feita, adornado com correntes e um relógio de ouro.

O garoto prontamente pegou o dinheiro e saiu. Aquilo, para ele, era uma fortuna, um incentivo para continuar sua ilícita prática. Nos dias seguintes, os roubos se tornaram cada vez mais frequentes, e Jackson arrecadava um montante maior do que jamais havia visto em sua vida. Escondia a riqueza num velho alçapão, num galpão abandonado no centro de São Paulo. Naquela manhã, a rotina não seria diferente. Dona Leda, sua mãe, a única pessoa que lhe tinha amor, foi acordá-lo:

- Meu filho, levanta! Já são 9h!

Jackson levantou e se trocou. O café simples com pão preparado pela mãe foi engolido com voracidade. Saiu de casa apressado, outras vítimas o aguardavam. Uma distraída senhora de idade, um rapaz bem apessoado e um homem de meia-idade tiveram seus bens tomados. Agora era hora de trocar o que obtivera por cifras.

Mas sentia que alguém o observava. Sentia os olhos fixos de um alguém que não sabia quem era. Corria, como ele corria... Olhava para trás e alguém o seguia, não havia tempo para raciocinar, só queria fugir e escapar ileso de quem quer que o estivesse caçando. Entrou num velho prédio, subiu os inúmeros andares, mas o desconhecido ainda o perseguia. Não há mais para onde fugir, não há escapatória, não há saída.

Jackson estava no mais alto pavimento e encurralado. Fitou os olhos no inimigo, era um homem. Ele o reconheceu, a voz, a barba mal feita... Era o traficante que lhe pagava pelos objetos roubados.

- Assustado, pirralho? Tá com medinho? Acha que passaria despercebido todo o seu faturamento? Você tava tratando com gente graúda... E a gente gosta de ganhar o máximo de grana, ficar no lucro, saca? Uma morte a mais ou a menos...

- Vocês não sabem onde guardo o dinheiro! A gente pode negociar, vocês podem me deixar vivo e te mostro o dinheiro! –suplicou Jackson.

- Tá me achando trouxa, moleque? A gente já sabe onde tu guarda o tesouro, isso aqui é só queima de arquivo, sacou?

Um estrondo ecoou do alto do edifício. A cidade nunca está tranquila, ainda mais o centro, onde o coração de São Paulo pulsa com maior vigor. Naquela tarde cinzenta, o vermelho coloriu o terraço do Martinelli e um coração deixou de bater. Jackson foi uma vida que passou em branco, não fosse a última página de sua história tingida de sangue.

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Escrito por Mayra Maldjian às 09h39

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Top 10 Copa do Mundo da África do Sul – As zebras fora de campo

Ana Carolina Machado
@carolina_mach

 

Pois é, agora acabou mesmo. Depois de um mês inteiro só falando em jogadores, técnicos, seleções, esquemas táticos, vitórias e derrotas, chegamos ao fim de mais uma Copa do Mundo.

Uma coisa que chamou a atenção de todos nós, telespectadores, é que essa edição do torneio foi recheada de rivalidades (não apenas dentro, mas principalmente fora de campo) e personalidades que nem sempre participaram diretamente dos jogos.

Foram tantos acontecimentos em tão pouco tempo que resolvi listar as principais zebras da copa fora de campo. Muitas delas não só chamaram mais atenção do que os próprios jogos, como também influenciaram no resultado de alguns deles.

1. Seleção Francesa

A maior vergonha dessa Copa do Mundo, com certeza. A França não passou nem para as oitavas de final, sendo eliminada logo na fase inicial dos grupos. Se fosse 'apenas' isso, tudo bem. A Itália também não avançou às oitavas. Mas a seleção francesa foi marcada por crises internas entre técnico e jogadores. Até o ex- jogador Zidane foi mencionado como um dos envolvidos nas indisposições entre a seleção francesa e Raymond Domenech (técnico da França). Além disso, após a derrota da França nessa edição do torneio e a publicação de notícias sobre os problemas internos da seleção, o caso virou uma questão de Estado. Até membros da política francesa, como Nicolau Sarkozy, comentaram os fatos e prestaram satisfações ao povo francês.  

2. Parreira x Domenech

Ainda no assunto 'fiasco francês' , não foi apenas com seus jogadores que o técnico Domenech se indispôs. Ele recusou-se a cumprimentar o técnico brasileiro Parreira, que nesta copa estava à frente da seleção da África do Sul, após um jogo entre as seleções francesa e sul-africana. Domenech justificou-se alegando que Parreira havia feito críticas à classificação da França para o Mundial da África após o lance no qual Thierry Henry (jogador francês) encosta a mão na bola. Justificativa nada coerente, visto que não foi só Parreira quem criticou o lance de mão de Henry e que, após os últimos acontecimentos envolvendo a seleção francesa, se Domenech se recusar a cumprimentar todos que criticaram sua seleção, não falará com mais ninguém, nem mesmo com os próprios jogadores.

Vídeo: http://www.youtube.com/watch?v=uecRQzw-ic8&feature=related

3. Dunga x Imprensa

O técnico da seleção brasileira ficou conhecido pela sua restrição à imprensa e muitas vezes também pela forma agressiva que lidava com os jornalistas. Mas o maior destaque dessa história, foi o caso envolvendo a rede Globo e o técnico da seleção brasileira. Dunga interpelou um repórter da emissora durante uma entrevista coletiva e questionou se ele estava com algum problema, referente as declarações de Dunga e da proibição de entrevistas e reportagens exclusivas para rede Globo. Após isso, no intervalo da coletiva, Dunga pronunciou palavras ofensivas ao repórter, mas que foram captadas pelos microfones, que ainda estavam ligados. O caso foi comentado pelo jornalista Tadeu Schmidt no Fantástico. A emissora declarou seu posicionamento desfavorável em relação à atitude do técnico. Mais tarde, Dunga se retratou pelo ocorrido, mas pediu desculpas apenas aos torcedores e não à rede Globo ou ao repórter que ofendeu. Após a eliminação brasileira na copa, o apresentador global Faustão também mencionou críticas ao comportamento do técnico Dunga. Ricardo Teixeira, presidente da CBF, deixou bem clara sua posição em relação a Dunga após a eliminação da seleção brasileira: não só demitiu toda a comissão técnica, como também afirmou que não há outra solução a não ser uma reformulação da seleção brasileira.  

4. Joachim Low x Higiene

Essa não se refere a nenhum conflito, mas é tão desagradável quanto. O técnico alemão Joachim Low foi flagrado limpando seu nariz e depois comendo a sujeira durante um dos jogos da Alemanha. Para as mulheres que o achavam um dos técnicos mais charmosos dessa copa, que decepção ! E para os que não achavam, é no mínimo engraçada a cena em que Low nos mostra sua falta de higiene.

Vídeo: http://www.youtube.com/watch?v=uUPxtgwHcYw

5. Mick Jagger

Ainda bem que Jagger é um mito do rock e vocalista de uma das bandas mais famosas do mundo, os Rolling Stones. Porque se ele fosse um esportista ou líder de torcida organizada, além de morrer de fome viveria frustrado. O pé frio mais famoso da Copa do Mundo de 2010 ! Mesmo sem entrar em campo, desequilibrava os jogos com sua torcida da arquibancada. Todo time que ele escolheu para torcer perdeu: EUA , Inglaterra, Brasil e Argentina. Resumindo, Mick Jagger é o oposto do polvo Paul, que merece um tópico de discussão só seu a seguir.

6. Polvo Paul – O Profeta

O grande vencedor dessa copa ! Sem assistir aos jogos ou muito menos entrar em campo, o polvo alemão Paul acertou todos os resultados que arriscou. Se ele participasse de algum bolão, teria faturado uma boa grana. Há quem diga nas redes sociais da internet que a tática de Paul é mais simples do que imaginamos: ele descobre pra qual time Mick Jagger vai torcer e depois escolhe o time adversário. Assim parece fácil, não ?

Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/esporte/764355-polvo-infalivel-preve-espanha-campea-da-copa-do-mundo-2010.shtml

7. Jabulani e Vuvuzela

O principal foco de atenção durante os jogos de futebol ganhou ainda mais destaque nessa edição da Copa do Mundo. A nova versão da bola apresentada pela Adidas (uma das empresas patrocinadoras do Mundial) deu o que falar. Antes mesmo da Copa começar, jogadores reclamavam dos efeitos surreais da Jabulani, que de acordo com alguns jogadores, é mais ágil e leve. Sobre o peso, não há o que contestar. Os padrões de medida das bolas são estipulados pela Fifa. Já a aparente agilidade da bola se deve a um design diferenciado, que pode ter influenciado na percepção que os jogadores tiveram da bola oficial da Copa da África do Sul. De qualquer forma, tratando-se de futebol, o que mais importa não é a qualidade da bola, e sim de quem a utiliza.

Já a vuvuzela é a síntese sonora dessa edição da Copa do Mundo. Os torcedores do pais sede assistem aos jogos ao som de cornetas barulhentas que não param de ser tocadas. No começo, jogadores e torcedores estranharam as vuvuzelas. Mas a Fifa não proibiu sua utilização nos estádios, visto que esse Mundial foi realizado na África do Sul e que a prática das vuvuzelas é parte da tradição cultural do pais para jogos de futebol. Aqui no Brasil, o instrumento se popularizou e muitos torcedores entraram no clima africano, assistindo aos jogos e fazendo muito barulho (sempre que possível, é claro).

8. Larissa Riquelme

Virou a musa da Copa após aparecer como uma torcedora fervorosa da seleção de seu pais, o Paraguai. Chamou a atenção não apenas por sua beleza, mas também pelo jeito particular de guardar o celular, como muitos dizem, “entre suas jabulanis”. Larissa prometeu que se o Paraguai avançasse à semifinal, ela tiraria a roupa em praça pública. Usou a mesma estratégia de Maradona (que também fez afirmação semelhante no início da Copa), mas com um impacto bem maior. Muitos espectadores passaram a torcer pelo Paraguai esperando que Larissa cumprisse o prometido. Mas o Paraguai não se classificou para a semifinal. Mesmo assim, a modelo deverá cumprir o prometido, agora talvez não em praça pública, mas para alguma publicação de conotação sensual.

Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/esporte/758627-musa-da-copa-diz-que-e-a-namorada-do-mundial-e-faz-promessa-a-la-maradona.shtml

9. Casillas

Se Larissa Riquelme é a musa da copa, o título de muso desse Mundial deve ficar com o jogador Casillas. Além de ser um dos jogadores mais bonitos, é o capitão da seleção vencedora: a Espanha. Fora isso, Casillas é namorado da bela jornalista Sara Carbonero. Sara faz cobertura esportiva para o canal Telemundo e no início deste Mundial foi apontada como motivo da distração do goleiro Casillas durante um dos jogos iniciais da Copa. Pelo que dizem, o goleiro havia tomado um gol porque se concentrou na namorada, que estava atrás de seu gol na área restrita à imprensa fazendo a cobertura do jogo. Com a final da Copa e a vitória da Espanha, Sara foi entrevistar seu namorado, que deixou sua posição de jogador de lado e beijou a moça.

Vídeo:
http://www.youtube.com/watch?v=81B1DoVXHb4&feature=related

10. CALA A BOCA GALVÃO

A campanha iniciada no twitter e que foi parar até no The New York Times é um exemplo do papel ativo que as redes sociais da internet tiveram nesse Mundial. Todos os acontecimentos relacionados à copa (mas não somente esses) eram alvo de piadas e repercussão em sites como Orkut, Facebook e Twitter. Muitas celebridades usam o Twitter como uma ferramenta de comunicação com o público e divulgam também seus comentários sobre os assuntos mais falados no microblog (os Trending Topics). Durante o mês da Copa da África, piadas referentes à seleção brasileira, a Mick Jagger, ao polvo Paul, à Larissa Riquelme e aos jogadores e técnicos estiveram constantemente entre os TT's.

 

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Escrito por Mayra Maldjian às 10h25

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