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Persona - Parte I

Por Luciana Marques


A sociedade atual permite que quem viva nela use máscaras para esconder seus defeitos. As pessoas tentam enganar aos outros e a si mesmas ao se reconstruírem em imagens do que gostariam de ser. É impossível reconhecer um ao outro no início, não só pelas imagens criadas, mas também pela quantidade de pessoas, como em um grande Baile de Máscaras - um mundo em que todos usam máscaras para se relacionar e aprisionar aquilo que não agrada. No fim, essas máscaras caem e se perdem, e a realidade se liberta de seu cativeiro.

Quando descobriu que perdera o emprego, Ricardo também recebeu a notícia de que sua namorada não queria mais estar ao seu lado. Ela escolheu a tarde para lhe dizer isso, e, no início da noite, ele fora ao seu antigo ambiente de trabalho para acertar os últimos detalhes. Tentou sair rapidamente após recolher o que lhe pertencia. Entretanto, o caminho da saída tornava impossível não passar em frente à sala de seu ex-chefe, a qual era também ocupada por outra presença na ocasião.

Ironicamente, estava lá sentada na mesa, de saia e pernas abertas, ninguém além de sua ex-namorada.

Agora, Ricardo andava em uma rua escura no caminho para sua casa, com seus pertences em uma caixa. Pensava. Apenas alguns meses antes, um rosto bonito batera em seu escritório pedindo ajuda. Poucas semanas depois, a ajuda concedida se expandiu para fora do escritório: para o restaurante, para o bar, para a cama. E ele se deixou enfeitiçar pela máscara usada por aquele rosto bonito, que da mesma maneira que viera, se fora em frações de segundo. Juras foram usadas para camuflar suas intenções verdadeiras, e Ricardo caíra em todas as armadilhas.

Ela soube, antes mesmo dele, que seu antigo posto não mais lhe pertencia e dito isto, a única coisa que a interessava em Ricardo se esvanesceu. Fez questão de dispensá-lo logo que ele foi demitido, e consumar o seu novo amor com aquele que estava acima dele. Provavelmente, ela usaria desse amor também uma máscara, pois se porventura este homem perdesse seu posto no trabalho, também perderia seu posto ao lado dela. E então ela procuraria alguém capaz de levá-la mais alto do que Ricardo ou seu ex chefe.

O vagante se sentia como uma escada que sua ex usou para subir sem olhar para os degraus. Assim foi ele e os outros que vieram e viriam; uma forma de fazer sua imagem, seu status, e compensar sua falta de brilho, que fez seu coração sair por suas costas e se espatifar no chão como uma peça delicada de cristal.

E ele se lembraria dela com desprezo.

Quando estamos a andar com pensamentos, é comum perdermos o rumo sem que nos apercebamos. Os pensamentos cegam os olhos para todo o resto. A caixa com seus pertences não pesava, mas Ricardo se sentiu cansado depois de um tempo, e o cansaço o fez perceber que não andava por uma rua que conhecia. A noite parecia deserta.

Desolado e perdido, resolveu seguir duas mulheres joviais, energéticas, risonhas, que iam um pouco a sua frente. Vestidas com roupas de festa curtas, carregavam máscaras nas mãos - uma delas era do tipo Carnaval de Veneza, e a outra era uma cabeça de gorila. Acanhou-se para fazer perguntas, então optou por simplesmente continuar a segui-las rua abaixo, na esperança de que fosse levado para um lugar mais familiar.

Em algum ponto do caminho, os braços cederam ao cansaço, e largaram os pertences de seu dono no chão. O barulho das coisas caindo no chão não pareceu incomodar as duas mulheres, que seguiam o caminho fiéis às suas risadas. Viraram a esquina, entraram em uma outra rua de casas, e escolheram uma porta para entrar.

Se este fosse qualquer outro dia na vida de Ricardo, ele teria desistido e procurado outro jeito de sair dali. Porém, não se contentou em ficar curioso para onde duas mulheres com máscaras nas mãos entrariam. Além disso, havia música alta e vozes dentro da casa... talvez não as atrapalharia se entrasse para espiar. Quem sabe, passaria despercebido.

Ricardo pensou ainda um pouco. Por fim, cedeu. Suspirou, foi até a porta e tocou na maçaneta. Não sabia se teria algo a perder ou não, mas procurou deixar seu cansaço e suas frustações do lado de fora.

 

Escrito por Mayra Maldjian às 17h00

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